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A Igreja Adventista do Sétimo Dia surgiu do fervor religioso do século 19

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A Igreja Adventista do Sétimo Dia surgiu do fervor religioso do século 19

A Igreja Adventista em seus primórdios surgiu de um clima de reavivamento religioso no nordeste dos Estados Unidos. Reuniões campais, como este encontro milerita, eram uma marca registrada do Segundo Grande Despertamento. [fotos de cortesia do Escritório de Arquivos, Estatística e Pesquisa]

Após o desapontamento, renovado estudo dos ensinamentos bíblicos; papel fundamental de Ellen G. White

February 04, 2013 | Silver Spring, Maryland, United States | Elizabeth Lechleitner/ANN

Nota do Editor: Este é o primeiro de uma série de artigos históricos publicados este ano em que se tem o aniversário de 150 anos da Igreja Adventista do Sétimo dia.


Quando o pregador batista William Miller disse que Jesus estaria voltando em 22 de outubro de 1844, muitos americanos não ficaram apenas surpresos de que ele havia estabelecido uma data. A noção de que Cristo estaria retornando literalmente já era em si uma ideia radical.



No século 19, a maioria das igrejas estabelecidas pregava que a Segunda Vinda era mais mito do que realidade e conceito mais humano do que divino. Os líderes religiosos ensinavam uma metafórica “segunda vinda” simbolizando a ascensão de uma nova geração temente a Deus, socialmente responsável.

Mas a crença dos mileritas  numa Segunda Vinda literal--juntamente com novos entendimentos de profecias--o sábado do sétimo dia e o estado dos mortos—se provariam fundamentais. Estas doutrinas centrais iriam ancorar o movimento do Advento dos primeiros tempos em meio a um clima de turbulência religiosa.

O nordeste dos EUA no início do século 19 era um nascedouro de avivamentos. O chamado Segundo Grande Despertamento inflamava movimentos como os dos shakers, mórmons, os precursores das Testemunhas de Jeová, os mileritas e uma série de ramificações excêntricas. Na verdade, a região ao norte de Nova York era apelidada de “o distrito queimado”, referindo-se ao fato de que os evangelistas tinham esgotado o suprimento de pessoas não-convertidas na região.

Nesse clima, os mileritas enfrentaram o grande desapontamento, quando o grupo em grande expectativa, mas em vão, esperou pelo retorno de Cristo. Com aquilo que o historiador adventista George Knight chama de “certeza matemática de sua fé” esmagada, muitos mileritas abandonaram o movimento.

Os que permaneceram ficaram divididos quanto ao significado de 22 de outubro. Alguns alegavam que a data era totalmente falsa. Outros sustentavam que Cristo havia retornado, mas apenas num sentido espiritual, ilusório. Um grupo final--os futuros líderes dos adventistas do sétimo dia dos primeiros tempos--estava convencido de que a data estava certa, mas o evento era errado.

Revigorados por esta possibilidade, reagruparam-se e voltaram à Escritura, determinados a descobrir a verdade. O que concluíram é que ao invés de retornar à Terra em 22 de outubro, Jesus começou a última fase de Seu ministério expiatório no santuário celestial.

Uma jovem metodista, chamada Ellen Harmon (mais tarde White), deu credibilidade profética a essa interpretação. Sua visão de dezembro de 1844 de um “caminho estreito e apertado” para o céu confirmou que a profecia tinha de fato sido cumprida em 22 de outubro e galvanizou o que seria o enfoque central da denominação em Cristo.



O historiador adventista David Trim impressiona-se com a habilidade dos mileritas transcenderem de uma mensagem inicial “espetacularmente errada”. Enquanto, diz ele, é verdade que os movimentos apocalípticos muitas vezes surpreendentemente mantêm alguns de seus seguidores, mesmo quando suas ideias são “claramente refutadas”, estas “não são o tipo de pessoas que seguem em frente para fundar uma Igreja muito bem sucedida. Que os adventistas fizeram isso não prova que Deus está do seu lado, mas que você tem líderes inteligentes e racionais”.

Talvez o mais significativo é a crença da Igreja Adventista de que Deus estava orquestrando os eventos, Trim diz. “Creio que os primeiros adventistas tinham um forte chamado do Espírito Santo. É terrivelmente antiquado, mas acredito que a nossa Igreja foi chamada à existência naquele momento para um propósito”, diz ele.

Também demonstraram um profundo anseio pela verdade bíblica, diz ele. “Isto é o que os sustenta quando todos os outros ex-mileritas estão indo para roteiros excêntricos ou roteiros apenas muito da linha majoritária e cautelosos,” Trim comenta.

Para os crentes do advento originais, a chamada “verdade presente” era dinâmica. E, de fato, com as poucas centenas de adventistas observadores do sábado da década de 1840 crescendo para 3.000 em 1863, quando a Igreja Adventista do Sétimo Dia foi oficialmente estabelecida, a sua compreensão doutrinal não sofreu alterações menos marcantes.

Logo no início, pioneiros como Tiago White foram fervorosos em sua chamada para “sair de Babilônia”. A princípio, era uma mensagem para deixar a religião organizada e voltar para a simplicidade do evangelho. Isso não surpreende historiadores religiosos, que observaram que a cada poucas gerações, as pessoas se sentem compelidas a voltar para os fundamentos da sua fé. Na verdade, esta tendência estimulou o Segundo Grande Despertamento.

Mas o que é surpreendente, Trim diz, é a reversão que White lidera na medida em que o movimento se expande. Em 1859, Tiago passou a acreditar que o chamado para “sair de Babilônia”, na verdade significava a intenção de deixar a desorganização e aceitar a estrutura de Igreja.



“Isto, obviamente, se desenvolve sobre o fato de que, em última análise, Babilônia vem de Babel--ou confusão--e White diz que o chamado para sair de Babilônia é realmente deixar toda essa caótica corrente religiosa incrivelmente emocionante e fervorosa para entrar em algo um pouco mais organizado. Então o sentido de 'sair de Babilônia' se transformou e completamente foi revertido em sua cabeça”, acentua Trim.

Mas ao avançarem em direção da estruturação da Igreja, os primeiros adventistas não perderam o seu zelo inicial. Em vez disso, foram capazes de criar um equilíbrio entre o radicalismo que permeava grande parte da expressão religiosa de meados dos anos 1800 e do conservadorismo que se seguiria. É um equilíbrio que a Igreja Adventista mantém ainda hoje, Trim diz, e que encontra as suas raízes na tensão de longa data entre espírito e ordem, que remonta à Igreja medieval dos primeiros tempos.

“Você tem que ter o espírito porque a ordem se torna estável e ossificada e hierárquica, mas você tem que ter a ordem, porque o espírito se torna caótico e auto-destrutivo”, diz ele.

A pioneira Ellen White da Igreja Adventista foi crucial na preservação desse equilíbrio. Através de seu dom profético, Trim diz que White estava idealmente situada para temperar disputas inevitáveis ​​entre os líderes adventistas dos primeiros tempos, como seu marido, Tiago, José Bates, Urias Smith, João Nevins Andrews, Jorge Butler e outros. Todos eles eram indivíduos “de incrível alta potência e motivação” personalidades necessárias para impulsionar um movimento localizado que veio se tornar uma Igreja global, diz ele.

Enquanto alguns estudantes de história da Igreja podem achar “desconcertante” a tensão entre os líderes centrais, Trim argumenta que o movimento do Advento nos seus primórdios é singular no que permaneceu unido em meio a um clima onde, na sua maioria, os grupos religiosos tendiam a se dividir, seguir um líder carismático, ou dissolver-se completamente. Apesar de desacordos, os adventistas finalmente se firmaram por detrás da verdade bíblica alcançada através de oração e estudo da Bíblia, ou revelada através de profecia.

“Aqueles homens são totalmente convencidos de que [Ellen White] é a mensageira de Deus. Se ela diz: “Foi-me mostrado isso”, eles aceitam, mesmo que, inicialmente, não gostem”, diz Trim.

“Eles são muito prontos para o debate, e fazem isso em termos muito diretos, mas também são muito rápidos em perdoar, e não guardam rancor”, Trim diz. “Eles têm uma abertura que nos faria bem copiar.”



Os adventistas modernos poderiam achar os pioneiros adventistas peculiares. Alguns não criam na Trindade ou na personalidade do Espírito Santo, e pensavam que Cristo era um ser criado. Muitos observavam sábado de 6 da tarde da sexta-feira às 6 da tarde do sábado, independentemente do tempo real do pôr do sol. Eles também não tinham escrúpulos quanto a comer carnes imundas. Tudo isso, porém, iria mudar nas próximas décadas.

O que os adventistas de hoje provavelmente iriam reconhecer em seus antepassados é a convicção. No sábado, segunda vinda, santuário, entre outras crenças fundamentais, os pioneiros adventistas criam ter descoberto o que Trim chama de uma “chave” para desbloquear a totalidade da verdade bíblica.

“Eles percebem que essas doutrinas estão todas dizendo a mesma coisa a respeito de Deus, elas estão todas apontando na mesma direção, e assim os adventistas dos primeiros tempos se sentem compelidos a bater-se por elas. “Esta preocupação com a verdade é inspiradora”, aduz ele.

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