Notícias

SEGUNDO DE UMA SÉRIE: O acusador de Monteiro tentou retratar-se de seu testemunho

SEGUNDO DE UMA SÉRIE: O acusador de Monteiro tentou retratar-se de seu testemunho

O pastor Antônio Monteiro, que aparece na fotografia durante um culto na igreja em 2009, está numa prisão em Lomé (Togo). Depois de quase 500 dias, seu caso ainda não foi a julgamento. Não há nenhuma evidência contra ele. [imagem cedida pela família Monteiro]

July 18, 2013 | Silver Spring, Maryland, United States | ANN staff

O pastor Antônio Monteiro e outros membros da Igreja têm estado na prisão por quase 500 dias tendo como única base a acusação de um homem. Mas de acordo com um exame psiquiátrico ordenado pelo tribunal, esse homem, chamado Kpatcha Simliya, mais tarde se retratou da acusação, dizendo que havia sido espancado pela polícia e forçado a dar nomes de pessoas que supostamente sabia serem conspiradores com ele numa rede de tráfico de sangue.

Isso tem feito com que dirigentes da Igreja Adventista, advogados e diplomatas se perguntem por que Monteiro e outros adventistas acusados ​​de coordenar um suposto tráfico de sangue permanecem na prisão sem julgamento.

O artigo 15 da Constituição do Togo declara: “Ninguém pode ser arbitrariamente preso ou confinado A pessoa detida, sem base legal terá o direito de solicitar a intervenção judicial. A autoridade judiciária competente decidirá imediatamente sobre a legalidade ou a regularidade do confinamento em questão”.

No mês passado, um editorial no jornal local ‘La Symphonie’ fez apelo para um “julgamento justo” para os detidos. “Dezenas de pessoas acusadas em diversos casos são trancafiadas em prisões por longos períodos”, expressou o editorial.

Cinco pessoas estão sendo arbitrariamente detidas em ligação com o caso, de acordo com dirigentes da Igreja: Monteiro, que desde 2009 tem trabalhado como diretor de departamento da Igreja Adventista na União Missão do Sahel; o membro da Igreja Bruno Amah, um empregado da Togo Cellulaire; o membro da igreja Beteynam Raphael Kpiki Sama; Simliya e Idrissou Moumouni, um muçulmano que foi voluntariamente à polícia para testemunhar que Simliya era um mentiroso.

As prisões e detenções ocorreram depois de uma série de assassinatos em maio de 2011.

Dependendo de qual seja a fonte policial, ou dos jornais, mais de uma dezena de corpos de mulheres entre 12 e 36 anos, foram encontrados num subúrbio de Aguoé, a norte de Lomé. Os corpos tinham ferimentos de arma branca e alguns órgãos sexuais retirados. Em cerimônias de macumbaria local muitas vezes se utiliza sangue e partes de animais. A prática de tais ritos religiosos é acatada por muitas pessoas no Togo.

Quando não ocorreram prisões, as pessoas passaram a exigir justiça para esses assassinatos, disseram dirigentes da Igreja.

Simliya mais tarde foi mostrado na televisão, cercado por policiais, contando a história de uma série de assassinatos que ele disse ter organizado e indicou cúmplices que coletaram sangue e órgãos. Mas grande parte da sua história era altamente improvável, o que incluiu o número de vítimas e os métodos utilizados, de acordo com o legista que examinou Simliya.

“Qualquer homem com algum conhecimento, e que seja razoável, teria dúvidas sobre sua incrível declaração ou a viabilidade de seus crimes ou supostos crimes”, afirmava no último dia 9 de setembro de 2012 o exame médico ordenado pelo tribunal.

O testemunho original de Simliya fez com que surgissem muitas indagações. O juiz encarregado do caso de Monteiro solicitou que o exame psiquiátrico de Monteiro fosse atribuído ao Dr. Tchangai Tchatcha. No seu relatório, Tchatcha descreveu a personalidade de Simliya como “desequilibrada” e “psicopata” e “tendências patológicas a mentir”.

Quanto ao testemunho de Simliya, Tchatcha declarou em sua avaliação médica por escrito: “A sequência de ideias parecia ilógica, e muitas vezes mudava seu depoimento, chegando até a fazer declarações conflitantes”.

“É uma pessoa manipuladora, e, sobretudo, um mentiroso. Todos os que o têm conhecido têm confirmado esta opinião”, escreveu o Dr. Tchatcha.

Guy Roger, presidente da União Missão do Sahel disse sobre Simliya: “Ele tem utilizado amplamente sua ‘condição de irmão na fé’ “para receber ajuda das comunidades adventistas da região em que costumava circular segundo eram as suas necessidades”.

Simliya nasceu em 1984 em Kara, segundo os relatórios da polícia O Dr. Tchatcha disse que a personalidade de Simliya era resultado de sua “infância perturbada”. A identidade de seu pai fora questionada por diversas vezes pelo mesmo, que o enviava “daqui para lá para viver com diferentes parentes, como se fosse um pacote”, escreveu Tchatcha.

Simliya passou quatro anos na prisão (entre 2006 a 2010), condenado por estupro.

Até março do ano passado, a polícia documentou que Simliya estava tentando enganar jovens vendedoras para que o acompanhassem até lugares desabitados com promessas improváveis de que havia alguém esperando para comprar todas as suas mercadorias.

Depois de ser libertado da prisão em 25 de junho de 2010, dois nomes aparecem como pessoas que quiseram lhe ajudar: Bruno Amah e Pastor Essossinam Komlan Sagao.

De acordo com um relatório de 22 março de 2012, Simliya pediu ajuda a Sagao para conseguir trabalho no porto. Sagao disse que não tinha idéia sobre esses trabalhos, mas lhe ofereceu para que trabalhasse lavando carros. Simliya não era um bom trabalhador, e depois de uma semana renunciou, contou Sagao, sempre segundo o relatório.

Simliya afirma que foi torturado pela polícia enquanto estava sob custódia, e que foi obrigado a dar nomes de pessoas que conhecia na cidade. Em seguida, indicou vários nomes dos que tinham recentemente tentado lhe ajudar, incluindo nomes de Monteiro, Amah e Sagao.

No entanto, depois de citar esses nomes à polícia, Simliya disse a Tchatcha numa entrevista na enfermaria da prisão: “Fui ver o juiz para confessar que tinha mentido, e ele me disse que se eu mudasse a minha declaração, iriam colocar-me em prisão perpétua”, segundo a avaliação médica de Tchatcha.

Um investigador de polícia, uma vez perguntou a Monteiro por que ele havia se associado com uma pessoa como Simliya.

De acordo com um relatório da polícia, de 22 de março de 2012, o oficial chefe Gaté N'Zonou lhe perguntou: “Por que foi associar-se com um homem quando sua idade e condição social não se compara à sua? Por que se meteu com um canalha?”

“Esse é o meu perfil, alguém que acredita que não há distinção entre todos os seres humanos”, disse Monteiro. “É para mostrar amor por essa pessoa e ajudar essa pessoa a ficar longe do pecado.”

Voltar para a lista