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A IGREJA ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA VOTA DECLARAÇÃO SOBRE A TRANSEXUALIDADE

Dirigentes denominacionais expressam o desejo de levar as pessoas ao pé da cruz, e não afastá-las de Cristo

A IGREJA ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA VOTA DECLARAÇÃO SOBRE A TRANSEXUALIDADE

O vice-presidente geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Artur Stele, fala durante a discussão sobre a declaração a respeito da transexualidade [crédito de foto: ANN / Brent Hardinge]

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Dirigentes denominacionais expressam o desejo de levar as pessoas ao pé da cruz, e não afastá-las de Cristo


A seguinte declaração sobre transexualidade foi votada pela Comissão Executiva da Igreja Adventista do Sétimo Dia durante as reuniões do Concílio Anual de Primavera. 

Em seu papel de presidente, Ted Wilson, presidente da Igreja Adventista do Sétimo Dia, pediu que a declaração fosse votada “com a compreensão de que poderemos ajustar a terminologia aqui ou ali de modo a torná-la menos abstrata”. E aduz: “A última coisa que queremos é criar atitudes intolerantes que levem as pessoas para longe de Cristo e da Igreja. Queremos que venham para o pé da cruz e para Sua graça transformadora”. 

A Comissão de Ética do Instituto de Pesquisa Bíblica, dirigido por Ekkehardt Mueller, diretor-associado do Instituto de Pesquisa Bíblica, juntamente com eticistas, estudiosos bíblicos, teólogos, sociólogos, psicólogos e membros da comunidade médica, foi encarregada de escrever a declaração. 

“Declaração sobre Transexualidade” 

A crescente conscientização das necessidades e desafios que os homens e mulheres transexuais experimentam e a ascensão das questões transexuais à proeminência social em todo o mundo levantam questões importantes, não só para aqueles afetados pelo fenômeno transexual, mas também para a Igreja Adventista do Sétimo Dia. Enquanto as lutas e os desafios daqueles que se identificam como pessoas transexuais têm alguns elementos em comum com as lutas de todos os seres humanos, reconhecemos a singularidade de sua situação e a limitação de nosso conhecimento em casos específicos. No entanto, acreditamos que a Escritura fornece princípios para orientação e aconselhamento às pessoas transexuais e à Igreja, transcendendo as convenções e cultura humanas. 

O Fenômeno da Transexualidade 

Na sociedade moderna, a identidade de gênero tipicamente denota “o papel de vida pública (e geralmente reconhecido legalmente) como menino ou menina, homem ou mulher”, enquanto o sexo se refere “aos indicadores biológicos de masculino e feminino”.[1] A identificação de gênero geralmente se alinha com o sexo biológico de uma pessoa quando de seu nascimento. Contudo, desalinhamento pode ocorrer a nível físico e/ou mental-emocional. 

No nível físico, a ambiguidade na genitália pode resultar de anormalidades anatômicas e fisiológicas, de modo a não ser possível estabelecer claramente se a criança é do sexo masculino ou feminino. Esta ambiguidade da diferenciação sexual anatômica é muitas vezes chamada de hermafroditismo ou intersexualismo.[2] 

No nível mental-emocional, o desalinhamento ocorre com pessoas transexuais, cuja anatomia sexual é claramente masculina ou feminina, mas que se identificam com o sexo oposto ao de seu sexo biológico. Podem se descrever como estando presas num corpo errado. O transexualismo, anteriormente diagnosticado clinicamente como “transtorno de identidade de gênero” e agora denominado “disforia de gênero”, pode ser entendido como um termo geral para descrever a variedade de maneiras pelas quais os indivíduos interpretam e expressam a sua identidade de gênero diferentemente daqueles que determinam o gênero com base em fatores de sexo biológico.[3]“Disforia de gênero é manifestada numa variedade de maneiras, incluindo fortes desejos de ser tratado como sendo do outro sexo ou livrar-se de suas características sexuais, ou uma forte convicção de ter sentimentos e reações típicas do outro sexo”.[4]  

Devido às tendências contemporâneas de rejeitar o binário bíblico de gênero (masculino e feminino) e substituí-lo por um crescente espectro de gênero, certas escolhas desencadeadas pela condição transexual passaram a ser consideradas normais e aceitas na cultura contemporânea. No entanto, o desejo de mudar ou viver como uma pessoa de outro sexo pode resultar em escolhas de estilo de vida biblicamente inadequadas. Disforia de gênero pode, por exemplo, resultar em vestuário de sexo diferente, [5] cirurgia de reatribuição do sexo, e o desejo de ter um relacionamento conjugal com uma pessoa do mesmo sexo biológico. Por outro lado, pessoas transexuais podem sofrer silenciosamente, viver uma vida celibatária ou estar casado com um cônjuge do sexo oposto. 

Princípios Bíblicos Relacionados à Sexualidade e ao Fenômeno Transexual 

Como o fenômeno transexual deve ser avaliado pelas Escrituras, os seguintes princípios e ensinamentos bíblicos podem ajudar a comunidade de fé a se relacionar com pessoas afetadas pela disforia de gênero de uma maneira bíblica, e tendo a Cristo em vista: 

1. Deus criou a humanidade como duas pessoas que são respectivamente identificadas como masculino e feminino em termos de gênero. A Bíblia liga inextricavelmente o gênero ao sexo biológico (Gên. 1:27; 2: 22-24) e não faz distinção entre os dois. A Palavra de Deus afirma a complementaridade, bem como distinções claras entre o homem e a mulher na criação. O relato da criação do Gênesis é fundamental para todas as questões da sexualidade humana. 

2. De uma perspectiva bíblica, o ser humano é uma unidade psicossomática. Por exemplo, a Escritura repetidamente chama o ser humano de uma alma (Gên. 2:7, Jer. 13:17, 52: 28-30, Eze. 18:4, Atos 2:41, 1 Cor. 15:45), um corpo (Efé. 5:28, Rm 12:1-2, Apo. 18:13), carne (1 Ped. 1:24), e espírito (2 Tim. 4:22; 1 João 4:1-3). Assim, a Bíblia não endossa o dualismo no sentido de uma separação entre o corpo e o sentido da sexualidade. Além disso, uma parte imortal dos seres humanos não é imaginada nas Escrituras, porque somente Deus possui a imortalidade (1 Tim. 6:14-16) e a concederá àqueles que Nele crerem na primeira ressurreição (1 Cor. 15:51-54). Assim, um ser humano também deve ser uma entidade sexual não dividida, e a identidade sexual não pode ser independente do corpo. De acordo com a Escritura, nossa identidade de gênero, tal como foi projetada por Deus, é determinada pelo nosso sexo biológico no nascimento (Gên 1:27; 5:1-2; Sal. 139:13-14; Mar. 10: 6). 

3. A Escritura reconhece, no entanto, que devido à Queda (Gên. 3:6-19) todo o ser humano—isto é, nossas faculdades mentais, físicas e espirituais—é afetado pelo pecado (Jer. 17:9; Rom. 3:9; 7:14-23, 8:20-23, Gál. 5:17) e precisa ser renovado por Deus (Rm 12:2). Nossas emoções, sentimentos e percepções não são indicadores totalmente confiáveis ​​dos desígnios, dos ideais e da verdade de Deus (Pro. 14:12; 16:25). Precisamos de orientação de Deus através das Escrituras para determinar o que está em nosso melhor interesse e viver de acordo com a Sua vontade (2 Tim. 3:16). 

4. O fato de alguns indivíduos reivindicarem uma identidade de gênero incompatível com o seu sexo biológico revela uma dicotomia séria. Esta quebra ou angústia, sentida ou não, é uma expressão dos efeitos prejudiciais do pecado sobre os seres humanos e pode ter uma variedade de causas. Embora a disforia de gênero não seja intrinsecamente pecaminosa, ela pode resultar em escolhas pecaminosas. É outro indicador de que, a nível pessoal, os seres humanos estão envolvidos no grande conflito. 

5. Enquanto os transexuais estiverem comprometidos a ordenar suas vidas de acordo com os ensinamentos bíblicos sobre sexualidade e casamento, podem ser membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia. A Bíblia identifica clara e consistentemente qualquer atividade sexual fora do casamento heterossexual como pecado (Mat. 5:28, 31-32; 1 Tim. 1: 8-11; Heb. 13: 4). Os estilos de vida sexuais alternativos são distorções pecaminosas do bom dom de Deus da sexualidade (Rm 1: 21-28; 1 ​​Cor 6: 9-10). 

6. Em vista de que a Bíblia considera os seres humanos como entidades holísticas e não diferencia entre sexo biológico e identidade de gênero, a Igreja adverte vigorosamente as pessoas transexuais contra a cirurgia de mudança de sexo e contra o casamento, se foram submetidos a tal procedimento. Do ponto de vista holístico bíblico da natureza humana, uma transição plena de um gênero a outro e a consumação de uma identidade sexual integrada não podem ser esperada no caso da cirurgia do reatribuição de sexo. 

7. A Bíblia ordena que os seguidores de Cristo amem a todos. Criados à imagem de Deus, devem ser tratados com dignidade e respeito. Isso inclui pessoas transexuais. Os atos de ridicularia, abuso ou intimidação contra pessoas transexuais são incompatíveis com o mandamento bíblico: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mar. 12:31). 

8. A Igreja como comunidade de Jesus Cristo deve ser um refúgio e um lugar de esperança, de cuidado e de compreensão para todos os que estão perplexos, sofrendo, lutando e se sentindo sozinhos, pois “não esmagará a cana quebrada, e não apagará o morrão que fumega” (Mat. 12:20).  Todas as pessoas são convidadas a participar da Igreja Adventista do Sétimo Dia e desfrutar da comunhão de seus crentes. Aqueles que são membros podem participar plenamente na vida da igreja, desde que abracem a mensagem, missão e valores da Igreja. 

9. A Bíblia proclama a boa notícia de que os pecados sexuais cometidos por heterossexuais, homossexuais, transexuais ou outros podem ser perdoados, e as vidas podem ser transformadas pela fé em Jesus Cristo (1 Cor. 6:9-11). 

10. Aqueles que experimentam incongruência entre o seu sexo biológico e identidade de gênero são incentivados a seguir os princípios bíblicos em lidar com a sua angústia. São convidados a refletir sobre o plano original de Deus de pureza e fidelidade sexual. Pertencendo a Deus, todos são chamados a honrá-Lo com os seus corpos e suas escolhas de estilo de vida (1 Cor 6:19). Com todos os crentes, as pessoas transexuais são encorajadas a esperar em Deus e lhe são oferecidas a plenitude da compaixão divina, paz e graça antecipando o breve retorno de Cristo, quando todos os verdadeiros seguidores de Cristo serão completamente restaurados ao ideal de Deus. 


[1] Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th ed. (DSM-5TM), editado por American Psychiatric Association (Washington, DC: American Psychiatric Publishing, 2013), 451.
[2] Os que são nascidos com genitália ambígua podem ou não beneficiar-se com tratamento cirúrgico corretivo.
[3] Ver DSM-5TM, 451–459.
[4] Esta sentença é parte de um sumário sucinto de disforia de gênero para introduzir DSM-5TM publicado em 2013:https://www.psychiatry.org/File%20Library/Psychiatrists/Practice/DSM/APA_DSM-5-Gender-Dysphoria.pdf (acessado em 11 de abril de 2017).
[5] Vestuário de sexo oposto, também conhecido como comportamento travesti, é proibido em Deuteronômio 22:5.